22 segunda-feira , outubro , 2018
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A fissura democrática brasileira

A fissura democrática brasileira

A atual crise da democracia não se limita à «crise de representação». As eleições têm hoje menor capacidade de representação por razões institucionais e sociológicas e há mal-estar e desassossego cidadãos. (Pierre Rosanvallon. A democracia do século XXI, 2018)

É comum em campanhas eleitorais, candidatos e suas coligações, elevarem o tom das críticas aos adversários e governantes de plantão. Porém, a democracia brasileira exibe no pleito eleitoral de 2018, uma surpreendente evolução do grau de polarização dos adversários. Inegavelmente, a fissura na democracia brasileira aberta pelo tom beligerante dos discursos políticos culminara no atentado contra a candidatura que representa o radicalismo de ultradireita. Noutro polo do cenário eleitoral, a insistência de induzir uma candidatura soterrada nos escândalos de corrupção e ficha limpa, trata de embaralhar o jogo eleitoral com potencialização dos discursos sentimentais e fundamentalistas.

O retrato eleitoral captado nas pesquisas de intenção de voto recentemente publicadas infere que o nível de polarização garante um vitorioso silencioso na guerra de narrativas sem lastro com a realidade social, o voto dos indecisos com alta rejeição no cardápio de candidaturas colocadas à mesa do banquete democrático. Uma facada no apetite dos competidores no mercado de votos. Existe uma ausência de debates que exponham a realidade dura da maioria dos brasileiros, informalizados e desempregados, miseráveis e sem futuro. Somos uma nação sem bússola, com ausência de sentidos e falta de direção.

No ano que os brasileiros deveriam referendar a Constituição Cidadã aprovada em 1988, cristaliza-se nas candidaturas um desejo de solapar os direitos sociais dos cidadãos de uma nação que economicamente cresce lentamente, deserdando a futura geração das garantias sociais conquistadas na transição democrática. Enquanto os fundamentalistas conservadores desfraldam as flâmulas verde-amarela, as ruas sangram com aumento da violência, colorindo de vermelho nossa cidadania cindida por falta de perspectivas. A educação continua claudicando em indicadores que remetem uma década perdida de boas intenções com desvalorização veemente nos investimentos públicos, resultando no descaso com os profissionais. Um desastre anunciado por falta de vontade política de sucessivos governos.

Na saúde pública, as unidades hospitalares vivem em constante estado de observação, com profissionais e leitos abandonados à lógica da gestão financeira de recursos desperdiçados em juros que drenam para a unidade de terapia intensiva, os desassistidos da universalização aparente. A seguridade social no Brasil, cantada em prosa e verso nos artigos da Constituição de 1988, indica que, o que vale mais do que vidas perdidas, são os juros da dívida pública pagos para o sistema financeiro.

Quando candidatos são expostos à violência, um atentado contra a democracia duramente construída, a comoção toma conta do noticiário nacional. Em sucessivos editorais, condena-se um ato tresloucado que expos a vida de um presidenciável.  Nos esquivamos do problema da segurança pública, que vive entre balas perdidas da falta de uma proteção integral aos cidadãos brasileiros, expostos as milícias dos traficantes que adotam os adolescentes e jovens que não tem educação e emprego adequado, entregues a penúria existencial. Ademais, o aparato policial vive entre as sombras das esquinas na periferia do sistema, distribuindo mais violência que proteção.

No momento de fissuras e polarizações na débil democracia brasileira, as candidaturas e suas coligações esqueceram o valor universal da liberdade e igualdade, transformando o jogo político em mera quimera eleitoral.

Por Eduardo Guerini