17 segunda-feira , dezembro , 2018
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Enfrentamento e Resistência

Enfrentamento e Resistência

“O importante não é justificar o erro, mas impedir que ele se repita” (Che Guevara. Sem Perder a Ternura: Pequeno Livro de Pensamentos de Che Guevara. 1999. p. 49)

A tempo da política eleitoral onde os eleitores foram os principais artífices da construção do resultado que consagrou Jair Bolsonaro (PSL), como futuro Presidente da República brasileira. A campanha eleitoral expos a intrincada gramática social que se escondia há séculos na miríade das relações privadas dos indivíduos. Uma gama de conservadorismo oxigenada com intolerância, recheada com pitadas de ódio racial, contra as novas matrizes identitárias, e, substancialmente um enredo que conduz ao choque liberal que encaminha a solução pelo mercado, não mais pelo ineficiente Estado patrimonial brasileiro.

A estridência da eleição presidencial se alicerçou no discurso das notícias falsas (fake news), nas novas práticas de concorrência pelo voto, preponderando nas redes sociais, pequenos discursos ao vivo, com ensaios sobre projetos de programas futuros contra uma lógica precedente que prioriza alianças e coligações partidárias tradicionais. A nova dinâmica da eleição presidencial e aos governos estaduais, destronou a figura da propaganda emotiva, das boas imagens e da diplomacia em sabatinas e debates, um enredo construído pelo sentimento do cidadão comum, a opinião pública se voltou contra a opinião publicada de especialistas e da grande mídia, em muitos momentos, turvou as pesquisas eleitorais.

A estratégia “firehosing” foi vitoriosa na campanha bolsonarista, em virtude da conversão massiva dos eleitores a dinâmica de enfrentamento contra o “establishment político”, não importando a distinção entre fato e ficção, a diferença entre o verdadeiro e o falso, como disse Hanna Arendt sobre a origem do súdito ideal para um governo totalitário. O resultado rompeu um dique que há muito tempo apresentava as trincas na democracia formal brasileira, com um claro recado das urnas para que os partidos e seus representantes atuassem contra os privilégios e benesses, clientelismo e patrimonialismo, que fez do Estado um voraz e apetitoso monstro que cobra impostos, contribuições e taxas, sem prestar serviços públicos de qualidade. A esperança foi depositada contra o medo do retorno a velha cantilena que polarizou a disputa entre agremiações partidárias que empunhavam o slogan “nós contra eles”. O eleitor prefere um ponto de interrogação contra as surradas exclamações.

Os novos parâmetros da vida política brasileira retira o exclusivismo da mudança do Partido dos Trabalhadores, que amarga uma dupla derrota: a retórica do golpe imposto pelo impeachment, e, a saga do mito destronando a ideia de Lula como único candidato que teria o protagonismo para conduzir o Brasil ao novo estágio de crescimento com distribuição de renda. O antipetismo empunhado por Bolsonaro catapultou sua vitória no primeiro e segundo turno, sem o auxílio de uma campanha portentosa no horário eleitoral gratuito, e, coligações robustas, tal como apresentada na candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). Neste quadro, o horário eleitoral com as velhas fórmulas sepulta a figura do marqueteiro tradicional, assim como, aposenta a ideia de governos no presidencialismo de coalizão. O PT e PSDB, associados as grandes siglas que conduziram a transição democrática foram atropelados pela dinâmica da complexa transição brasileira.

A cegueira das lideranças e partidos políticos tradicionais impõe um novo desafio para o cotidiano da prática parlamentar e partidária. Assim, a resistência e oposição ao governo eleito, deverá buscar um novo arranjo fora das institucionalidades tradicionais, sem, contudo, esquecer o lastro social com seus movimentos associativos. Neste intrincado jogo de interesses na complexa sociedade brasileira, os desafios políticos dos atores sociais será reconstruir a teia que resiste entre a “velha” e “nova” política com novos arranjos no marco da legitimidade imposta pelas urnas para governo e oposição. Afinal de contas, o Brasil precisa ser reconstruído depois do “tsunami” econômico da recessão no vendaval eleitoral da onda liberal-conservadora.

Por Eduardo Guerini